Enleios
Não soube explicar as diferentes variedades de luz que adentravam seu quarto; cada tom parecia não caber em si. Respirou fundo. Sentiu um incômodo indecifrável, como se estivesse limitada a um arco-íris em branco e preto. Tantas combinações escoavam por entre os olhos e nenhuma era capaz de se fazer verdadeiramente definível... Permitiu-se, então, supor cores onde não havia, cores exatas, aclaradas, para não contrariar a lógica das suas vontades.
Vivia de hipóteses e nem percebia mais.
Vivia de hipóteses e nem percebia mais.
Quid pro quo
Olhou-se no espelho e viu um estranho. Recusou-se a assimilar o reflexo num suspiro quase inaudível de insatisfação. Em vão. Atenuar efeitos não o sustentaria agora - nada o sustentaria agora. Ainda assim pensava ser ilógico tudo aquilo. Não entendia como o rosto continuava o mesmo. Quem era aquele que, dissimuladamente, estava a ocupar seu lugar? Fez incidir pensamentos sobre pensamentos, mas não concluiu coisa alguma. Sentiu-se prisioneiro em si mesmo, um "si" que já nem o pertencia mais. Chorou cada lágrima do outro como se fosse sua para, finalmente, aceitar que era dois. Sempre fora dois.
