quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A melodia do encontro

A sala, lugar de não estar, era o palco da espera. A moça fitava a escada, que há pouco sentira a completude dos passos dele, como se um tesouro estivesse escondido ali. O destino, demasiado generoso como foi (tornando recíprocos os olhares impossíveis), exigia que se esforçasse para merecer o gesto; aguardar o jovem rapaz de cabelos loiros descer novamente os degraus parecia, então, a forma mais sensata de contemplar esse imperioso pedido.

Suas mãos seguravam qualquer coisa de concreto para evitar a iminente entrega; no primeiro toque e lá se ia o coração - sabia. Cinco minutos ou cinco horas depois (perdera as contas), o aroma veementemente masculino invadiu o sofá e a sua cabeça... Ele chegou. Por entre suspiros abafados, o coração dançava descompassado. Ensaiou inúmeras vezes algo inteligente para dizer, mas só conseguia balbuciar cumprimentos num idioma que, definitivamente, não era o inglês.

Os olhos dele ardiam em tons conflitantes de azul e a voz soava feito bossa nova no silêncio agora interrompido. Foram, naquele momento, duas almas que, sedentas por musicalidade, permitiram encontrar-se e encantar-se...

Até que a canção tocasse na hora errada (e, sim, ela haveria de tocar).

domingo, 11 de dezembro de 2011

Breathless

[corinne bailey rae gets it]

De tão transparente, fui invasiva - na lógica injusta que prega a honestidade como subversão. Mostrei-te o que eu era e te dei permissão para seres quem fosse, mas tu não reagiste e continuaste na superficialidade. A verdade é que, incontestavelmente, havia medo na tua frieza. Pequei, contudo, por ser ingênua; pensei ter descoberto como manejar as indiferenças e te despir as armaduras... Parece-me também que uma suposta idéia de reciprocidade assombrou-te, como se minhas palavras te obrigassem a responder à altura o que eu própria nem sabia que falava ou sentia... Fugiste indesculpavelmente e me deixaste no silencioso e caótico mundo dos ignorados! Inobstante, não lhe pedi nada além de cuidado e estou ciente de que qualquer coisa para além disso não é mérito ou culpa minha.

Por vezes respirei fundo e aceitei o teu tempo; não sou de esperar, mas escolhi inalar a cinza destas horas alheias a mim porque, do contrário, anteciparia o iminente fracasso. Senti a angústia - que não era bem angústia por ser ínfima - de viver no intervalo daquilo que esperei e do que, de fato, aconteceria (e transformaria, à ventura, a sorte do número - de nós - dois). Segui vertendo a paciência que nunca tive e me esbarrei com os teus enigmas, mas não pude desvendá-los a tempo.

Quis segurar as tuas mãos e me embriagar na sutileza delas. Quis a distração que somente as novidades refulgiam - e tu eras novo em tantos sentidos! Estar na tua vida na condição que me impusesses: eu consentiria; o teu pouco me bastava porque eu também não tinha muito a oferecer. E de sorrisos e músicas estávamos "muito bem, obrigada" até que, de súbito, a realidade dos outros bateu à porta e, com ela, a urgência de respostas: o que éramos? O que faríamos?

Tínhamos esta liberdade clandestina que nos autorizava a descobrir e explorar o que o acaso nos revelava, sem nos corroermos pela necessidade de nomear o que se construía ao nosso caminhar. A relação surgia aos poucos pelo convite que, com os olhos, fazíamos a nós. Faltou-te, contudo, a clareza que implicitamente exigi. Sobrou-me, por conseguinte, a pretensão de que, apesar dos pesares, compreendesses o óbvio (sim, saltava à vista; estranhos se apercebiam das nossas entrelinhas). Duvidei, por instantes, de que estavas a par de tudo, mas percebi que teu silêncio era o escudo novamente a se manifestar... Sem cuidado algum.

E se tu te assustas com a simplicidade do vir-a-ser, não vales o que te atribuí...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Little lion

[can you notice what is implied?]

Deixei os sapatos esquecidos em algum cômodo e, junto a eles, minha racionalidade. Sim, ambos traziam calos à minha existência. Com os pés descalços (e desatinados), descortinei um mundo de possibilidades abscônditas no âmago do absurdo e, à entrada de qualquer coisa que não consegui nomear, encontrei você. Ah, o encanto do desconhecido...

domingo, 4 de dezembro de 2011

He

[when you lose something you can't replace]

Meu pai não morreu. Embora assertar algo desta natureza mais pareça consequência da fase da negação de um luto ainda por ser trabalhado do que, propriamente, uma afirmação esclarecida e pautada no real, creio que seja a melhor forma de introduzir o que pretendo expressar neste breve relato.

Lutas, conquistas e aprendizados rodearam-no durante seus 62 anos. Se meu pai fosse um adjetivo, certamente seria guerreiro; até os últimos momentos demonstrou coragem e força, impactando-nos com tamanha vontade de viver! Se fosse um verbo, seria edificar; tanto no sentido de construir quanto no de induzir ao bem e à virtude. A casa em que moramos, nossa família, meu caráter: todos foram frutos da conjugação de sua existência. Se fosse um substantivo, seria amor; palavra que transcende qualquer explicação. E é esse amor, com o qual ele nos presenteou, que o faz permanecer vivo hoje...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Even now

[you know who]

Minha urgência fez versos. Guardei-os comigo para continuar caminhando nas linhas do poema que, ingenuamente, chamei de nosso. Tropecei incontáveis vezes no teu silêncio para perceber tal parvoíce: o nosso sempre foi meu. Doeu porque era óbvio e porque não era teu. A esperança, entretanto, ofuscou qualquer rastro de pesar durante muito tempo: quão doce é a amnésia dos apaixonados! O coração, embora ciente do fracasso, urgia uma resposta rápida (qualquer coisa que negasse a ausência de alternativas), mas a resposta nunca veio. As respostas nunca vêm e a fatalidade do "sentir em vão" fez das músicas do William Fitzsimmons - e não mais você - a melhor companhia para poetizar a existência...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Wishful thinking

[what a great thing]

A espera é agridoce: sou expectador e espectador. Minha vida, refletida no compasso do relógio, parece ter parado. Com medo, ponho-me em guarda. Contigo, desarmaria-me das resistências.

E o que será? Tempo, tempo, tempo...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

She's losing it

[cancer chapter]

No começo, optei por não me expressar; não queria dizer nada porque sentir já era suficientemente cruel... "Falar sobre" implicaria entrar ainda mais em contato com aquele caos todo e - convenhamos - lidar com a própria bagunça psíquica é por demais desgastante.

Vesti sorrisos - o que causou estranheza. Confesso que (re)agir friamente diante das impossibilidades foi a máscara que melhor me caiu; a ilusão que a superficialidade lhe dá, por beirar o verossímil, tende a te suprir temporariamente.

De tanto usá-la, tal máscara acabou sendo uma extensão de mim. Tentei tirá-la e, aos prantos (sem sorrisos ou fortalezas), nem me reconheci.

O fato é que agora, embora continue sem querer, preciso verbalizar por uma simples questão de sobrevivência. Sou constantemente sufocada pelo silêncio que eu mesma impus. O peso de sentir ultrapassa os limites do corpo físico e me dói cada palavra não dita...

That's what cancer does.